O cabo da vassoura e o do guarda-chuvas se confundem? (Para um mesmo efeito a mesma obra – Romeu)
Um verdadeiro amigo é um tesouro… (verus amicus sunt tesaurus)
Vem-me na lembrança a história de um “ligeira” (mendigo de antigamente), que perambulava pelas ruas da pequenina cidade de Indaiatuba há 1/2 século.
Não tinha mais que 7.000 habitantes. Todos, como todos, conhecidos. Poderia dizer que todos, como todos, eram amigos naturais, sempre prontos a ajudar, apoiar e, naturalmente, dispostos às animadas prosas de todas as tardes.
A pacata cidade era toda plana como um aeroporto. Dizia-se que era a segunda cidade no mundo, exceto uma na França, Lyon, que recebe raios ultravioletas do sol diretamente, entre 10h e 12h. Não sei bem se é um fato ou tiririca.
Dito Geró, era o nome do ligeira. Era um homem negro, de barbas, pacato e querido por todos. Não fazia mal algum e tinha um vocabulário gentil e uma voz mansa e calma. Bom como pão.
Perambulava pela cidade com um grande saco às costas e, freqüentemente, dormia sob a arquibancada do estádio do Primavera futebol clube.
Indaiatuba, como Campinas, era uma cidade extremamente racista. Não admitia negros. Tanto que havia um bairro exclusivo para eles de nome Santa Cruz. Ficava logo após a baixada do Hospital Augusto de Oliveira Camargo, do outro lado da cidade, saindo para Salto de Itú.
Barbearias, bares e outros locais eram proibidos para os negros.
Aliás, até bem pouco tempo o ingresso deles como sócios no Indaiatuba Clube ou no Clube 9 de Julho era terminantemente proibido. Não eram aceitos no corpo social.
Eu, o Spagnol e o Raul (paquêro), éramos os raros brancos que vivíamos ligados com eles. Podíamos ir ao bairro sem que nada nos acontecesse e andávamos “insiemi” tranqüilamente. Tanto que não eramos bem vistos na cidade. Meu pai, como exemplo, sequer me dava atenção.
Acontece que Dito Geró tinha um cão que o acompanhava par-e-passo. Viviam como unha e carne.
Minha mãe, de vez em quando, preparava um prato de comida e pedia para levá-lo para Dito Geró.
Eu entrava por baixo da arquibancada e, enquanto me aproximava, o cachorro arreganhava os dentes para mim, só parando quando o Dito pedia. Puxa vida como tinha pulgas!
Dito Geró comia calmamente o almoço sempre dividindo com seu amigo uma boa parte da refeição.
Um dia, perguntei a ele o que mais tinha vontade, qual era o seu grande desejo ao que me respondeu. “Por enquanto tenho vontade de comer um frango assado sozinho”.
Falei com minha mãe e ela preparou um belo frango caipira e mandou chamar o Dito Geró para comer o frango na mesa que tínhamos no quintal.
Dito não esperou duas vezes e, com seu fiel companheiro, sentou-se em um banco próximo à mesa e preparou-se para comer.
Todavia, antes de dar a primeira mordida, separou as coxas do frango, as sobre-coxas, a moela e o coração e deu os pedaços ao cão.
Minha mãe atônita perguntou: O Dito, porque as melhores partes você está dando para o seu cachorro?
Dito Geró, com sua calma peculiar, respondeu: Senhora, quando estou dormindo ele me vigia para que ninguém ou nada me importune e quando ele está dormindo eu cuido do seu sono. Para o melhor amigo o melho pedaço.
Depois de tantos anos esse ensinamento relampejou em minha mente e mostrou-me que dos lugares menos esperados e mais simples você pode aprender máximas dignas dos maiores filósofos.
Que ensinamento profundo e eterno.
Agradeço aos anjos, arcanjos e demônios a oportunidade que tive, tão jovem, de aprender o valor da amizade.
Obrigado Senhor.

