Um “causo” verdadeiro contado pela própria Hildélia.
E o caixão teimava em não sair do lugar, apesar dos esforços do pessoal.Sempre fui apaixonado pelos “causos” contados pelos caboclos das fazendas onde trabalhei ou, quando criança, da fazenda do meu avô.
Ficava esperando o entardecer para aconchegar-me às rodas de prosa dos matutos, invariavelmente, nos finais de semana e, de quando em vez, nos dias santificados.

Assim, atento, ouvia as mais inusitadas estórias narradas, ora em tom de viola, ora em tom de prosa. O cheiro forte e perfumado do fumo de corda corria solto pela roda, enquanto se bebericavam essa ou aquela aguardente caseira feita pra mor de sabê quem fazia mió.

Minha mente se afastava para vislumbrar o quadro. Da distância do meu pensamento assistia as chamas amareladas envoltas na penumbra do fumaréu dos “paieiros” onde, a cada “fumada”, a pequena brasa na ponta do cigarro de paia se iluminava como o piscar do vagalume.

Sombras estranhas e mal formadas se entrelaçavam aos movimentos provocados pela ênfase das prosas. O som peculiar das vozes caipiras provocava certa sonolência e arrebatamento.

Quem me dera ser um pintor e gravar na tela aquele momento tão belo. Quem me dera ser um escritor para descrever, pé e par, cada detalhe ali presente.
Os chapéus de “paia”, surrados ou meio amarrotados se movimentando ao balouçar das cabeças eram deformados a cada instante, em dinâmicas constantes e cheias de peculariedades. Nada era o que parecia ser. Tudo se transformava instantaneamente.

Ali, próximo de algum caboclo, ficava eu. Embevecido. Encantado. Iluminado.
Boca aberta, olhos esbugalhados e ouvidos atentos, ali ficava eu. Devorando cada palavra e cada movimento.

Pois foi numa dessas prosas ao pé do fogo que ouvi a estória tal.
Diziam que uma certa senhora de nome Aurora madrinha de Hildelia, em um apontado e mal encantado dia veio a falecer.

Era uma afro-brasileira de beleza ímpar. De sorriso largo e faceiro, Da. Aurora era um encanto de pessoa.
Hildelia era menina prendada e cheia de bons costumes, bonita como ela só e cheia de vida.

Seu pai, Hildeberto, era deficiente visual e, apesar disso, corria mundo acompanhado de Da. Noemi, sua esposa, para ganhar o sustento de cada dia. Ficava a pequerrucha Hildelia sozinha grande parte do dia.

Motivo esse que aproximou a Da. Aurora da futura afilhada.

A madrinha foi escolhida a dedo. Hildelia gostava tanto dela que a escolheu pedindo-a para ser sua madrinha. O casal, Dra. Aurora e Seu Joaquim ficaram muito felizes com o convite e aceitaram de pronto.

Foram ter à Igreja para a cerimônia de batismo, pois, Hildelia apesar dos seus oito anos, ainda não fora batizada.

Tal madrinha, Da. Aurora era querida pelo povo e muitos foram os que compareceram para os funerais da boa e doce madrinha. Como de rotina o velório era feito na própria morada e servia para o reencontro dos muitos que por diversos motivos não se viam há algum tempo.

Então, um velório sempre acaba se transformando num evento social mais para colocar a prosa em dia do que, propriamente, para visitar o falecido.

A ligação da afilhada Hildelia com da. Aurora era muito grande. Suspeitava-se até que eram irmãs gêmeas nas gerações anteriores, tais eram as ligações entre as duas.

Da. Aurora era quituteira de mão cheia e Seu Joaquim demonstrava sua alegria com todos, falando de boca cheia dos dotes culinaristas da sua querida Aurora. Poucos sabiam fazer quitutes tão saborosos como os dela. Seu quintal era cheio de hortaliças, galinhas, patos e muitas frutas.

Prato cheio para uma criança como Hildelia andar a visitar a boa madrinha.

Com seu inseparável pito de barro com canudo de pau de piteira ou de mamona, a boa madrinha se aprumava no tronco de uma mangueira caída frente à sua casa e se deleitava com uma boa pitada. Eram aquelas boas tardes mornas do verão.

Seu falecimento não era esperado tão cedo. Afinal a boa senhora rodava, ainda, pelos cinqüenta e cinco ou sessenta anos e era portadora de excelente saúde e vitalidade.

A coisa foi repentina. Ninguém entendeu muito bem.

- Ela tava prosiano agora pôco tão bem? Diz um conhecido.

Mais um outro assentava.

- É verdade. Da. Aurora tava muito forte pra acontecê uma coisa dessas!
E as trocas de informações se seguiam por todos e entre todos.

- O que será da afilhadinha dela agora? Dizia mais outro.

- É memo. Da. Aurora era muito atarracada com a minina. Comentou Seu Joaquim.

- Fazia de tudo pela troncudinha Hildelia que era esperta como só vendo!

Dizia outra amiga mais ao canto:
Eram unha, carne e dedo. Juntinhas sempre que possível. Hildelia era chegada numa abobrinha refogada que a madrinha fazia. Ninguém fazia uma igual. E quando colhia couve manteiga e fazia bem picadinha passada na manteiga pura, Hildelia ficava doidinha.

Muitos de vocês devem se lembrar do costume de guardar carne de frango, de pato ou de porco dentro da banha. Então imaginem a gostosura quando você tira um naco de carne dali da tina de madeira e bota a fritar. A carne fica macia como quê e tem um sabor inesquecível.

- Ara sô! Tem coisa mió? Uma verdurinha refogada no ponto mais um arroiz sortinho com fejão de cardo grosso num tem iguar. Dizia um amigão do Seu Joaquim que andava choroso pelos cantos da casa.

Bem, o velório transcorria como de costume para a época. Vizinhas preparavam um café de coador bem forte, uns bolinhos e distribuíam entre os amigos.

Cuidados com as velas, com as flores e toda a atenção aos detalhes.
O velório de Da. Aurora tinha de ficar muito bonito mesmo.

Era chegada a hora de carregar o caixão e levar ao cemitério.
Seu Joaquim comentou:

- Será que a minina Hildelia não vem? Já avisarô ela?

Ninguém sabia de nada.

A hora pronta os mais chegados se aproximaram do caixão e mãos às alças o levantaram e se aprumaram para sair.
Quando começaram a andar, de repente o caixão começou a pesar muito. Ainda próximos dos cavaletes eles voltaram e recolocaram o caixão no lugar.

- Nossa Sinhora Mãe dos Óme! Que será que ta aconteceno. Perguntou um deles mais assustado.

- Num sei não! Nunca vi um caxão tão pesado! Coisa isquisita sô!

Seu Joaquim, que havia se colocado à frente para transportar a querida esposa, estava em silêncio.

Não fez um único comentário. Limitou-se a olhar meio de fianco para o caixão e ali permaneceu.

-Vamo tentá de novo pessoar. Disse um parente mais próximo.

- Intão Seu Joaquim. Podemo tentá outra veiz?
- Pode sim. Mais dessa veiz eu num vô ajudá não.

E levantaram a falecida novamente. Mas qual o quê. O caixão pesava mais ainda e não conseguiram andar um passo adiante, tal o peso do bruto.

Foi ai que Seu Joaquim, depois de muito pensar, se deu conta do que estava acontecendo.

- Vô falá proceis o que se assucede. Inquanto num chegá quem ela ta esperano minha muié num vai imbora.

E disse mais:

- Cêis vão vê só. Na hora que apontá a minina Hildelia a Aurora vai imbora.

Alguns se entreolharam duvidosos da fala do Seu Joaquim. Outros, mais crentes colocaram crédito nas palavras do marido de Da. Aurora.

Passadas quase duas horas, bateram palmas no portão e Seu Joaquim foi atender.

Era a minina Hildelia.

Ele a abraçou e levou-a para ver a madrinha.

Disse ele então:

- Pessoar, pode carregá que agora Aurora vai imbora.

Pois foi o dito e foi o feito. O caixão parecia uma pluma.

Aurora se foi feliz da vida mesmo que morta.

Esse foi mais um dos inúmeros causos contados pelos meus queridos caboclos.

- Inté pessoar! Otro dia nóis conta otro causo.