Não tinha nada.
Ele não tinha nada. Porém o nada que tinha era o seu tudo.
Todo aquele nada era o suficiente para ele. Havia se dedicado diuturnamente para amealhar tanto nada. Agora, nos seus sessenta e tantos anos, precisava gozar aquela conquista.
Desde tenra idade, havia se dedicado a conquistar o máximo de nada possível. Cada oportunidade de nada que aparecia ele guardava. Os dias nada chuvosos, as noites nada escuras, os momentos nada fáceis que encontrava no seu labor diário de juntar mais nada, eram guardados a sete chaves para que nada escapasse e nada fosse perdido.
Não dividia “seus nadas” com ninguém. Também não contava nada sobre o nada que ele vinha juntando. Ele achava que se ficasse se vangloriando do quanto nada ele já possuía, jovem ainda, alguém poderia tomar todo seu nada. Então, nada de falar do nada.
Não interessava nada a ninguém.
Certo era que muitos conhecidos tinham uma vontade enorme de saber o que ele andava fazendo. Muitos tentavam umas conversas mais próximas. Outros procuravam mostrar confiança contando seus segredos mais íntimos para ele, mas qual o quê, ele nada falava sobre o nada.
Nadão, era seu apelido, nunca tinha nada pra falar.
Trabalhava e assoviava alegremente na busca de juntar nadas. Cumprimentava a todos igualmente. Jovial e prazenteiro ia ele mudando passos daqui e dacolá sempre na busca de mais nada para juntar a todo nada que possuía.
Certo dia notou que já não cabia mais nada no seu nada cômodo lugar onde habitava. Era um recanto enfiado no meio de uma pedreira abandonada onde se formara um lago e a sua volta árvores de toda sorte haviam criado uma espécie de bosque. Pois, dentro desse bosque, com uma entrada semi disfarçada, ficava sua morada. Nada de luxo, nada de coisas e nada de nada. Para ele era o paraíso.
Vivia feliz e satisfeito até aquele momento. E veio-lhe a primeira preocupação. Onde colocaria os nadas que ainda iria ganhar?
Onde?
Naquele instante bateu os olhos à sua volta e nada viu.
Mas ele tinha guardado tantos nadas e, repentinamente, não havia mais nada! Quem teria roubado seus nadas?
Não, não e não! Nada disso!
Saiu como uma flecha, desesperado e, quase louco, encontrou-se com outro nada que vinha ao seu encontro.
Parou estático. Nunca soube da existência de mais nada igual a ele.
Então esperou e pensou: Quem seria aquele nada?
Assustado, frente ao espelho, nada disse e nada foi-lhe perguntado.
Seus nadas de nada serviram.
Nada havia pra ser dito.
Nadão estava sem nada.
Moral: Não cultive a ilusão como principio de vida
