Bucha: a sociedade secreta dos advogados.
Quer no mundo ou no Brasil, entidades como Iluminada, Carbonária, Jardineira, Gruta, Epicuréa, Apostolado, Areópago reuniam liberais moderados ou radicais que conspiravam contra as monarquias e o poder católico com o lema revolucionário de enforcar o último rei na tripa do último padre.
Por estratégia de autodefesa é que adotaram a prática do segredo e do juramento incondicional de seus membros.
A mais polêmica e misteriosa dessas agremiações no Brasil foi a Bucha, formada por estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo, cuja entidade de fachada era o Centro Acadêmico XI de Agosto.
Derivada da organização estudantil alemã Sociedade de Companheiros (Burschenchaft), a Bucha foi fundada em 1831 pelo jovem alemão e judeu Julio Frank, em São Paulo.
Mundialmente os estudantes dividiam-se entre sociedades amictistas, constantistas, unifistas, diferentes tipos de cavaleiros, inclusive de São João, e legiões, entre elas a Negra.
A origem de Julio Frank até hoje é mantida sob o mais reservado segredo. A única coisa que tem de oficial é que ele chegou ao Brasil clandestinamente em 1821. Alguns historiadores o identificam como o estudante Carlos Luís Sand, que na Alemanha fora condenado à morte por assassinato político em 1820 e, por influência daquelas sociedades secretas, outra pessoa teria sido executada em seu lugar. Daí sua clandestinidade.
Em seus primeiros anos no Brasil, Frank viveu como professor de línguas em Sorocaba, área de influência do senador Vergueiro, fundador de Rio Claro e Limeira. Natural de Portugal e um dos primeiros advogados do Brasil, na época Vergueiro era diretor da Faculdade de Direito de São Paulo, para a qual contratou Julio Frank como professor de Filosofia e História.
Em 1831, quando a Bucha foi formada com a contratação de Frank, Vergueiro era Regente do Trono Imperial e articulava-se politicamente através de sociedades secretas liberais. Assim fazia também Feijó, amigo de Vergueiro, igualmente influente no interior paulista e que, apesar de padre, defendia idéias contra o poder do papa, logo disseminadas pelas conspirações da Bucha.
A exemplo da Faculdade de Direito, as corporações estudantis tomaram conta das demais instituições de ensino em formação no Brasil. Vem dessa época a tradição de estudantes dividirem as despesas de moradia através da chamada república, no que se nota o tom liberal.
Até a Proclamação da República, quase que a totalidade das gerações da elite nacional passou por sociedades secretas e por essa influência ocupou os principais cargos públicos. Entre outros, teriam passado pela Bucha de São Paulo os presidentes Rodrigues Alves, Afonso Pena, além de Rui Barbosa, Pinheiro Machado e o Barão do Rio Branco.
A juventude da transição do século, além de contestar os poderes da monarquia e da Igreja, dedicava-se a agredir os valores morais, coisa típica do mais exaltado romantismo da época. Aos olhos conservadores, os estudantes eram libertinos, devassos, promotores de orgias e paganismo.
Poetas românticos como Fagundes Varella e Álvares de Azevedo eram considerados pelo radicalismo conservador como degeneradores de uma geração empenhada em viver as mais profundas paixões.
A moda romântica levaria os jovens a entregarem-se à vida boêmia, exaltar a palidez, o alcoolismo, drogas, desafiar a morte e promoverem bacanais. Da literatura internacional chegava ao Brasil o estilo maldito, profundamente anticlerical, permeado de heresias e não raro de satanismo poético. Era um escândalo para os religiosos, que faziam uma interpretação literal dos textos satânicos.
Registros sobre a real existência da Bucha foram discretos durante as primeiras três décadas do século passado. Isto porque a geração que estava no poder vinha daquela formação e constituía a chamada República dos Bacharéis.
A contar da Revolução de 1930, o eixo do poder mudou. Uma nova geração, mais de militares do que de advogados, assumiu o controle do País. O mundo vivia um período fortemente influenciado pelas idéias fascistas e racistas. O conservadorismo católico se fortaleceu com seus ideólogos deflagrando uma verdadeira guerra às sociedades secretas, quando então passou-se a rastrear a história da Bucha.
O pouco que se sabe sobre o assunto vem daquela época, evidentemente sectária. Para aqueles ideólogos, as sociedades secretas eram manipuladas pelo judaísmo, que estaria empenhado em uma grande conspiração para dominar as nações do mundo depois de destruir-lhes os valores morais e cristãos. A mais terrível das estratégias dos judeus estaria em conduzir os povos ao satanismo.
As sociedades secretas, de maneira geral, guiariam-se por esoterismos, síntese mística das religiões, inclusive do paganismo. Sobre esse ponto, a ortodoxia das religiões tradicionais apegaram-se contra seus detratores. Veio a público então que os membros das sociedades secretas eram adoradores do diabo.
Quem mais fomentou a denúcia foi o historiador integralista-católico Gustavo Barroso. Sua campanha era feroz e tumultuou o país na década de 1930. Seus críticos costumam dizer que Barroso agiu assim para ganhar espaço político. Seria sua pretensão conquistar o primeiro posto no integralismo, ocupado por Plínio Salgado. Gustavo Barroso era apenas o segundo nome do partido. Apesar de pressionado, Plínio Salgado conseguiu driblar as teses racistas e extremistas de Barroso, que historicamente acabaram vencidas.
A polêmica do satanismo das sociedades secretas apoiou-se no fato de muitas cultuarem a imagem de Bafomé, que seria o diabo e teria sido criada pelos Templários. As explicações das partes envolvidas no debate nunca chegaram a ser conclusivas.
Especialistas do esoterismo explicam que Bafomé, apesar da imagem cavernosa e horripilante, nada tem a ver com satanismo. Ao contrário, é um símbolo do Bem Universal.
Segundo a explicação, o bode é símbolo da fertilidade e animal sagrado nas religiões antigas para sacrifícios. A certeza de que Bafomé corresponde ao espírito do Bem estaria no fato de sua imagem trazer uma chama sobre a cabeça, representando a Grande Luz. Se fosse uma figura maligna, em vez de luz ele viria marcado por simbolismos das trevas, que não é o caso, dizem.
Finalmente, se a imagem de Bafomé representasse o Mal, ela traria asas como as de morcego, características das sombras. Também não é o caso, pois suas asas são do tipo utilizado para representar anjos do Bem.
Seja como for, a modernidade acabou com a antiga polêmica. Da Bucha nunca mais se falou. Seu nome e de outras sociedades do tipo ocupam espaço apenas no imaginário.
Jornal Cidade de Rio Claro

